Por Manoel Lucas Marthos / Sinal e Valor

Há um sinal claro ecoando nos corredores financeiros globais, e ele vem do maior deles: a BlackRock. A gestora de US$ 10 trilhões acaba de decretar que o “novo regime” de volatilidade está empurrando clientes na Europa, Oriente Médio e África (EMEA) para uma migração agressiva rumo aos mercados privados.

Para o investidor global, a mensagem é direta: a correlação tradicional entre ações e títulos públicos quebrou, a inflação é mais volátil e o alpha (retorno acima da média) agora reside na iliquidez e na economia real (Private Equity, Crédito Privado, Infraestrutura).

Mas, ao trazermos esse Sinal para a nossa realidade tropical, deparamo-nos com um problema de Valor: o Brasil e a Faria Lima parecem estar presos no que chamamos de “Fase Defasada”, enquanto o mundo avança para a “Fase Adiantada”.

A Fase Adiantada: O Movimento Global

Na nossa estrutura de análise, a Fase Adiantada é aquela onde o capital percebe a mudança estrutural antes que ela se torne óbvia nos preços.

A BlackRock aponta que, na região EMEA, os grandes alocadores já entenderam que a volatilidade dos mercados públicos (bolsa listada) é ruído demais para pouco retorno. Eles estão buscando refúgio e valor na construção de ativos reais a longo prazo. Eles aceitam “travar” o capital (iliquidez) em troca de prêmios de risco mais robustos e menos correlacionados com as manchetes diárias.

A Fase Defasada: O Dilema da Faria Lima

Enquanto isso, como está a Faria Lima? O condado financeiro brasileiro vive uma contradição cognitiva. Intelectualmente, os grandes gestores brasileiros entendem o movimento da BlackRock. Porém, na prática, o mercado local permanece na Fase Defasada.

Por quê? Porque temos uma “anomalia gravitacional” chamada Selic/CDI.

A Faria Lima ainda opera sob a lógica do rentismo líquido. O investidor brasileiro, mal acostumado com juros reais estratosféricos e liquidez diária, resiste a migrar para o Private Market. O gestor local, pressionado por cotas diárias e resgates em D+1, tem dificuldade em vender a tese de longo prazo que a BlackRock está implementando lá fora.

O Brasil está defasado não por falta de inteligência, mas por excesso de incentivo ao curto prazo. Enquanto o mundo foge da volatilidade pública para a serenidade privada, o Brasil corre para a renda fixa pós-fixada, ignorando que a construção de riqueza geracional (Valor) raramente acontece na liquidez imediata.

5 Pilares Teóricos para Entender o Momento

Para validar que este movimento não é apenas uma “onda”, mas uma mudança de paradigma, recorremos a cinco autores de peso que dão estofo a essa tese:

  1. David Swensen (O Modelo de Yale): O pai da alocação moderna. Swensen provou matematicamente que a única vantagem real do investidor de longo prazo é a capacidade de suportar a iliquidez. Ele argumentaria que ficar preso à liquidez diária (como o Brasil faz) é deixar dinheiro na mesa, desperdiçando o prêmio de iliquidez que os mercados privados oferecem.
  2. Howard Marks (Oaktree Capital): Em seus memorandos sobre “Sea Change” (Mudança de Maré), Marks alerta que o ambiente de juros zero acabou e que o comportamento do passado não funcionará no futuro. Ele reforça a necessidade de entender onde estamos no ciclo. O mundo está se adaptando ao novo ciclo; o Brasil ainda tenta replicar os ganhos fáceis do passado.
  3. Antti Ilmanen (AQR Capital): Autor de Expected Returns, Ilmanen é a referência teórica sobre por que os retornos esperados de ativos tradicionais (60/40) serão menores no futuro. A tese da BlackRock é pura teoria de Ilmanen aplicada: para manter retornos altos em um ambiente de volatilidade, é preciso diversificar em fatores de risco alternativos (mercados privados).
  4. Ray Dalio (Bridgewater): Com seu conceito de “Mudança de Ordem Mundial” e ciclos de dívida, Dalio nos ensina que em tempos de desordem e inflação volátil, ativos de papel (financeiros puros) perdem atratividade frente a ativos reais e produtivos (foco dos mercados privados).
  5. Joseph Schumpeter: O clássico economista da “Destruição Criativa”. Os mercados privados são, essencialmente, o financiamento da inovação e reestruturação antes que ela chegue à bolsa. Na Fase Adiantada, o valor é capturado durante a criação (Private Equity/Venture), não apenas na negociação secundária (Bolsa).

Conclusão: O Sinal foi dado

A BlackRock tocou o sino. A Europa e o Oriente Médio já estão se movendo. O Brasil, preso na gravidade dos juros altos e na cultura do curto prazo, corre o risco de chegar atrasado nessa festa mais uma vez.

Para o leitor do Sinal e Valor, fica a reflexão: sua carteira está posicionada para a volatilidade do “novo regime” ou ainda depende da calmaria artificial da liquidez diária? A defasagem pode custar caro.

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