Autor: Manoel Lucas Marthos
Data: Janeiro de 2026
Categoria: Geoeconomia & Estratégia
Se tivéssemos assinado o acordo entre Mercosul e União Europeia em 2019, teríamos estourado champanhe celebrando o “Livre Comércio”. Hoje, em janeiro de 2026, a assinatura deste tratado tem um sabor muito diferente. Não é uma celebração de abertura, é um ato de sobrevivência.
Aqui no Sinal e Valor, sempre insistimos em separar o ruído da informação. E o sinal que o mundo nos envia neste início de ano, com o segundo mandato de Donald Trump a pleno vapor e o “tarifaço” americano redesenhando as rotas comerciais, é claro: a velha globalização acabou. Aquele sonho de um comércio fluido regido pela OMC deu lugar à fragmentação e ao protecionismo agressivo.
Neste cenário hostil, o acordo com a Europa deixa de ser uma opção comercial para se tornar nossa apólice de seguro geopolítico.
O Fim da Ilusão e o Novo Pragmatismo
Durante décadas, ouvimos que o Brasil seria o “celeiro do mundo” e que o livre mercado resolveria nossas ineficiências. A realidade de 2026 nos atropelou. Com os Estados Unidos fechando portas para proteger seus próprios produtores e a China exigindo alinhamento político em troca de mercado, o Brasil se viu perigosamente isolado no Atlântico Sul.
O acordo com a Europa surge como uma resposta de “Friend-shoring” — o comércio entre parceiros que, se não são melhores amigos, pelo menos compartilham valores mínimos de democracia e regras. É um casamento de conveniência: a Europa precisa desesperadamente de segurança alimentar e minerais críticos para não depender da Ásia; nós precisamos de um mercado que pague em moeda forte e não nos trate apenas como colônia.
O Novo Agro: Adeus Volume, Olá “Compliance”
Para o nosso agronegócio, o jogo mudou drasticamente. O mercado americano, inundado de subsídios trumpistas, tornou-se um competidor feroz, não um cliente. Restou a Europa.
Mas atenção, investidor: a Europa não está comprando apenas a nossa soja ou a nossa carne. Ela está comprando segurança e rastreabilidade. Com a legislação europeia anti-desmatamento (EUDR) em pleno vigor, o acordo premia quem fez a lição de casa.
O Brasil deixa de brigar por preço no varejo global para se tornar a “boutique” de recursos naturais do Ocidente. Quem tiver o selo verde, entra com tarifa zero. Quem não tiver, sobrará no mercado “spot”, vendendo com deságio para compradores menos exigentes. É uma sofisticação forçada, mas necessária, da nossa pauta exportadora.
A Indústria: O Inimigo Agora é Outro
Talvez a maior ironia de 2026 esteja na nossa indústria. Durante 20 anos, a FIESP e a CNI temeram esse acordo, assustadas com a competição alemã. Hoje, o medo industrial brasileiro não fala alemão nem francês; ele fala mandarim.
A consolidação brutal das montadoras e da indústria de bens de consumo chinesas no Brasil mudou a equação. O acordo com a UE, paradoxalmente, pode ser a tábua de salvação da indústria instalada aqui. Ao zerar tarifas para máquinas, componentes e tecnologia europeia, nossas fábricas ganham acesso a ferramentas para tentar competir com a eficiência asiática.
Não se trata mais de proteger o mercado interno contra a Europa, mas de usar a Europa como parceira tecnológica para não sermos engolidos pela China.
O Sinal Final
Em meu texto antigo sobre “Globalização e Estado-Nação”, eu questionava até onde ia a soberania dos países. Hoje, a resposta está na capacidade de formar blocos. Sozinho, o Brasil é grande, mas vulnerável. Dentro de um bloco comercial com a Europa, ganhamos peso para negociar num mundo onde a lei do mais forte voltou a imperar.
Para você, investidor, a lição é clara: olhe para empresas que têm governança para acessar a Europa e para indústrias que estão se modernizando com tecnologia ocidental. O mundo de 2026 não perdoa quem ficou preso nos dogmas de 2010.
O acordo saiu. Agora, começa o trabalho de verdade: transformar papel assinado em valor real para a nossa economia.
