Por Manoel Lucas Marthos

Existe uma ilusão de ótica no mercado financeiro global que confunde até investidores experientes. Quando dizemos que “o capital fugiu do Brasil para os EUA”, imaginamos digitalmente notas de dinheiro voando por cabos submarinos de fibra ótica, saindo de São Paulo e pousando em Nova York.

Isso não acontece. Dinheiro fiduciário centralizado não viaja. O que viaja é a notificação.

Na eletrônica, distinguimos transporte de massa de transmissão de sinal. O dinheiro digital é um registro contábil em um banco de dados (o ledger). Quando você faz uma transferência internacional, o dinheiro não “sai” do lugar. O que ocorre é uma troca de mensagens autenticadas (SWIFT) que instrui um banco a debitar uma conta aqui e outro banco a creditar uma conta lá.

Mas aqui reside o segredo que define a geopolítica atual: Moeda e Território são indissociáveis.

O Dólar: Um Território Virtual Americano

Todo dólar eletrônico existente no mundo, em última instância, “mora” nos Estados Unidos. Ou ele está no passivo do Federal Reserve, ou no livro contábil de um banco correspondente sob jurisdição americana.

Se você tem uma conta em dólares nas Ilhas Cayman ou em Luxemburgo, esses dólares só existem porque aquele banco tem uma conta correspondente em Nova York.

Portanto, usar o dólar é operar em território americano.

É por isso que as sanções funcionam. Os EUA não precisam mandar o exército fechar sua conta. Eles apenas ordenam ao “dono do servidor” (o banco americano) que pare de processar as notificações do seu banco. É um “desligamento de porta lógica” no circuito central.

O Euro e a Tentativa de Território Compartilhado

O Euro foi uma tentativa de criar uma moeda onde o território não fosse de uma única nação, mas de um tratado. O “servidor” do Euro fica no Banco Central Europeu (Frankfurt).

Funciona (com ruídos) porque existe uma união política e jurídica. Se a Alemanha e a França discordam, há um tribunal e um parlamento. Há uma “placa mãe” unificada.

O Dilema da Moeda BRICS: Onde Fica o Computador?

Aqui entramos no cenário hipotético e problemático que a Faria Lima ignora ao sonhar com a “desdolarização”.

Se os BRICS criarem uma moeda comum (vamos chamá-la de “R5” ou “The Brick”), surge a pergunta de um milhão de dólares (ou yuans): Onde fica o livro contábil mestre?

Para uma moeda centralizada ter valor e confiança, alguém tem que ter a chave do banco de dados (o root access). Alguém tem que ter o poder de emitir e o poder de bloquear.

Vamos traçar os cenários de onde essa moeda hipotética “moraria”:

Cenário 1: O Servidor em Xangai (A Hegemonia Chinesa)

A China é a maior economia do bloco. A lógica econômica dita que o Banco Central dos BRICS ficaria lá, talvez atrelado ao NDB (Banco dos BRICS).

Cenário 2: O Sistema Distribuído (mBridge/Blockchain)

Poderiam tentar uma solução tecnológica: uma moeda digital de banco central (CBDC) compartilhada, usando blockchain permissionada, onde o “território” é a rede, não um país.

Cenário 3: A Cesta de Moedas (Apenas Unidade de Conta)

O cenário mais provável e menos ambicioso. Não se cria uma moeda de troca, mas uma unidade contábil (como o DES do FMI) baseada numa média do Real, Rublo, Rúpia, Renminbi e Rand.

Conclusão: A Falha de Impedância

Moeda é confiança, e confiança requer um garantidor de última instância (um Estado e suas Forças Armadas). O Dólar tem o exército americano. O Yuan tem o estado chinês.

A moeda BRICS não tem um Estado. Ela é um sinal sem terra.

Enquanto não houver um “Território BRICS” unificado juridicamente — o que é impossível dadas as diferenças entre Índia, China e Brasil —, qualquer moeda comum será apenas um arranjo político frágil.

Se o “servidor” da moeda ficar na China, estaremos apenas trocando o “Império do Dólar” pelo “Reino do Meio”. E na eletrônica, sabemos: quando você muda a fonte de alimentação sem checar a voltagem, o risco de queimar o aparelho (nossa soberania) é total.

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